“Gabriela “

Eu escrevo sobre sobrevivência e sobre me tornar uma mulher que parou de se esconder

Este texto faz parte de um projeto autobiográfico em andamento. Um fragmento de uma história real.

Eu escrevo sobre sobrevivência e sobre me tornar uma mulher que parou de se esconder Gabriela Croitoru

Sempre me diziam que eu era feia.

Que eu era negra.

Que eu era uma “cigana”.

As palavras doíam. Não como um golpe, mas como uma pressão constante e diária que te faz duvidar da tua própria existência. Chega um momento em que não sabes mais se te dói o que ouves ou se dói o facto de começares a acreditar.

Olhava-me ao espelho e não via uma criança.

Via o rótulo.

Eu era frágil, magricela, com cabelo curto cortado por ela — a “mãe”. Cortado não por cuidado, mas por controlo. A imagem que eu construíra era exatamente aquela que me fora dada: feia, fraca, inadequada. Uma criança que ocupava um lugar que não lhe pertencia.

Ela tinha dois filhos de outro casamento.

Éramos três.

Pobres.

Comíamos todos do mesmo prato. Um único prato, três crianças, uma ordem que nunca era falada, mas perfeitamente conhecida. Quando a colher chegava aos seus filhos, era cuidadosa, medida, quase terna. Levava-a à boca deles com cuidado, como se cada garfada contasse.

Quando chegava a mim, a colher transformava-se.

Ela enfiava-a profundamente, brutalmente, até ao fundo da minha garganta. Doía. Queimava. Sentia que me fazia mal, que arranhava algo dentro de mim que eu não sabia nomear. Quase que o esófago sangrava. Quase — porque nem mesmo o sangue podia aparecer.

Eu ficava sentada, de joelhos.

Comportada.

À espera da minha vez sem fazer caretas.

Não chorava.

Não recusava.

Não pedia.

Assim aprendi que existem crianças que são alimentadas com carinho e crianças que são alimentadas com dor. E que, às vezes, aquela que te dá comida pode, ao mesmo tempo, tirar-te o direito de te sentires um ser humano.

Eu não tinha espelho.

Apenas os olhos dela.

E através deles aprendi, muito cedo, a não esperar nada de bom de ninguém.

Saí da casa dos meus avós sem saber que, juntamente com aquele limiar, perderia algo que nunca mais recuperaria: a segurança de ser desejada.

Até então, o mundo tinha sido imperfeito, mas acolhedor. Mesmo as dores tinham contorno, tinham nome, tinham braços à sua volta.

Depois da partida, a realidade não me recebeu.

Bateu-me.

Conheci pela primeira vez a marginalização. Não através de grandes palavras, mas de pequenos gestos: olhares que paravam demasiado depressa, silêncios que duravam demasiado, uma frieza que eu não sabia como interpretar. Eu estava ali, mas não era bem-vinda. Eu estava presente, mas não era vista.

A rejeição não veio como uma explosão.

Veio como um inverno que se instala lentamente, até que não sabes mais quando o frio começou, mas o sentes nos ossos.

Foi então que aprendi algo que nenhuma criança devia aprender tão cedo: a aguentar-me sozinha.

Não porque fosse forte, mas porque não tinha alternativa.

Recolhi-me por dentro.

Apertei as minhas emoções como se fossem coisas frágeis numa mala demasiado pequena. Tornei-me cautelosa, calculista, dona de mim. Não por orgulho, mas por necessidade.

Ali, naquele espaço frio entre as pessoas, nasceu uma versão de mim que sabia resistir.

Não pedir.

Não chorar.

Resistir.

Não foi uma vitória.

Foi uma adaptação.

Mas mudou-me para sempre.

Não demorou muito para eu ver a hostilidade.

Não foi mascarada, nem subtil. Veio direta, fria, como um tapa que não te avisa.

O primeiro golpe foi duro. Não porque doeu fisicamente, mas porque partiu algo em mim: a ideia de que os adultos protegem, que aqueles que deveriam estar perto de ti não podem ser a fonte do teu mal. Foi um choque silencioso, sem testemunhas.

Então…

então aconteceu algo estranho.

Os golpes não pararam, mas o meu corpo começou a não os sentir mais. Não porque não doessem, mas porque aprendeu a recebê-los. Como se a minha pele, a minha alma, a minha respiração tivessem dito: “Este é o mundo. Esta é a regra.”

Compreendi então uma verdade cruel, demasiado grande para a minha idade:

a maldade tem um lado sombrio que não se negocia. Não se explica. Não se repara. As pessoas podem sentir ódio por outros seres humanos sem um motivo lógico, e tu não tens o poder de mudar isso.

O único poder real é a aceitação.

Não uma aceitação serena.

Mas de sobrevivência.

E eu aceitei.

Aceitei a hostilidade.

Aceitei a frieza.

Aceitei o ódio da pessoa que deveria ter sido a minha “mãe”.

Não porque eu merecesse.

Mas porque, às vezes, se não aceitas a realidade como ela é, ela despedaça-te.

Nesse período, o meu corpo tornou-se mais sábio do que a minha mente.

Aprendeu a calar-se.

A não pedir mais.

A não esperar mais.

É assim que nasce uma força invisível.

Um autocontrolo que não é escolha, mas adaptação.

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Gabriela Croitoru

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